Requeijão Moreno do Vale do Mucuri: Tradicional Delícia Mineira Conquista Regulamentação e Rumo ao Mercado Nacional

O Sabor Autêntico do Vale do Mucuri Agora Oficializado para Todo o Brasil
Por gerações, o requeijão moreno do Vale do Mucuri tem sido um tesouro escondido, atravessando estradas de terra e feiras livres em potes improvisados. Sua coloração escura e sabor intenso, resultado de um preparo demorado e artesanal, o consolidaram como símbolo da identidade do Nordeste mineiro. Contudo, a falta de uma regulamentação sanitária específica limitava sua expansão comercial, mantendo-o restrito à região.
Mas essa história está prestes a mudar. O Governo de Minas Gerais deu um passo decisivo ao oficializar o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) do requeijão moreno. Este documento crucial estabelece os parâmetros de produção, higiene e padronização necessários para que essa iguaria artesanal possa alcançar novos mercados.
A regulamentação é um divisor de águas para as agroindústrias familiares da região. Com a habilitação sanitária garantida, o requeijão moreno do Vale do Mucuri poderá ser comercializado em todo o território nacional, incluindo grandes redes de supermercados. “Com isso, nós vamos poder passar a vender requeijão moreno do Mucuri no Brasil inteiro, em supermercados até”, celebrou o governador de Minas Gerais, Mateus Simões, durante o evento de oficialização em Teófilo Otoni.
Dez Três Municípios São Berço do Tradicional Queijo Mineiro
A produção concentrada do requeijão moreno abrange 13 municípios do Vale do Mucuri: Ataléia, Catuji, Franciscópolis, Frei Gaspar, Itaipé, Ladainha, Malacacheta, Novo Oriente de Minas, Ouro Verde de Minas, Pavão, Poté, Setubinha e Teófilo Otoni. São nessas localidades que cerca de 76 agroindústrias familiares, segundo dados da Emater-MG, se dedicam a produzir aproximadamente 91,4 toneladas anuais da iguaria.
Esses pequenos produtores rurais preservam um modo de preparo transmitido entre gerações, mantendo viva a tradição e a autenticidade do requeijão moreno. A produção, muitas vezes manual e em pequena escala, enfrentava o desafio da falta de regulamentação, que dificultava a formalização e a ampliação dos negócios.
Características Únicas e Sabor Inconfundível
O requeijão moreno do Vale do Mucuri se distingue de outros queijos artesanais mineiros por suas características marcantes. Ele apresenta uma textura firme, uma coloração que varia entre o amarelo e o marrom, e um sabor levemente defumado. O segredo reside na utilização de leite cru coagulado naturalmente, combinado ao creme de leite cozido e à massa da coalhada lavada.
O processo de fabricação envolve etapas cuidadosas de aquecimento, lavagem da massa e incorporação do creme cozido, um ritual que garante a qualidade e o sabor único do produto. A ausência de uma regulamentação específica, até então, impedia que esse sabor chegasse a mais pessoas, limitando sua circulação e a formalização dos produtores.
Um Sonho Realizado para Produtores Renomados
Produtores como Neusa Lopes, que fabrica requeijão moreno há quase três décadas, celebram a conquista. Ela, que aprendeu a receita na infância e a aprimorou ao lado do marido, viu seu produto ganhar destaque em concursos nacionais. Em 2024, o casal conquistou a medalha Super Ouro no Mundial do Queijo do Brasil, e no ano anterior, uma medalha de prata na categoria Requeijão Moreno durante o Expoqueijo Brasil.
“O regulamento é um sonho realizado, um marco na minha vida. Poderemos vender para todo o Brasil”, afirma Neusa, expressando a alegria de ver um produto tão especial finalmente alcançar o reconhecimento e o mercado que merece. A regulamentação representa a possibilidade de expandir horizontes para um sabor que, por tanto tempo, permaneceu um segredo bem guardado do Vale do Mucuri.
Processo Detalhado de Regulamentação Garantiu Qualidade e Tradição
A construção do RTIQ para o requeijão moreno iniciou-se em 2023, a partir de uma solicitação da Associação dos Produtores de Queijo da Microrregião da Serra Geral. O processo envolveu uma colaboração entre diversos órgãos estaduais, incluindo a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), responsável pela validação científica, e o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), que conduziu a elaboração da minuta e a consulta pública.
O gerente de inspeção de produtos de origem animal do IMA, Rômulo Lage, enfatizou que o objetivo foi estabelecer parâmetros sanitários rigorosos sem descaracterizar o modo tradicional de fabricação. “Eles poderão adquirir o produto com a certeza de que é elaborado da forma correta, respeitando todo o procedimento que as pesquisas mostraram ser adequado, com parâmetros físico-químicos e microbiológicos”, explicou Lage. A oficialização ocorreu durante uma agenda do Governo de Minas em Teófilo Otoni, marcando um novo capítulo para o tradicional requeijão moreno do Vale do Mucuri.