Redução da Jornada para 36 Horas: PIB Pode Cair 6,2%, Mas Sindicatos Pedem Compensação e Alegam Superexploração do Trabalho - Brasa Noticias

Redução da Jornada para 36 Horas: PIB Pode Cair 6,2%, Mas Sindicatos Pedem Compensação e Alegam Superexploração do Trabalho

Impactos da Redução da Jornada de Trabalho para 36 Horas Semanais no PIB Brasileiro e Expectativas dos Sindicatos

A proposta de reduzir a jornada de trabalho máxima de 44 para 36 horas semanais tem ganhado força no debate público e político no Brasil. A medida, que visa combater a exploração excessiva do trabalho, levanta preocupações sobre seus efeitos na economia, com projeções indicando uma possível queda de 6,2% no Produto Interno Bruto (PIB), considerando o trabalho como fator de produção. No entanto, as centrais sindicais argumentam que os impactos negativos podem ser compensados por outros fatores, como o aumento do consumo e o estímulo à inovação e produtividade.

Estudos realizados pelo FGV-Ibre e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que, além da potencial retração do PIB, a transição para uma jornada de 36 horas poderia elevar em até 22% o custo da hora trabalhada para quem hoje cumpre o limite constitucional de 44 horas. No agregado de todos os empregos formais, o valor médio do trabalho subiria cerca de 17,6%. O custo operacional total para as empresas, contudo, aumentaria em menor proporção, variando conforme a intensidade do uso de mão de obra em cada setor.

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho tem avançado no Congresso Nacional. Recentemente, o presidente da Câmara, Arthur Lira, enviou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o tema para a Comissão de Constituição e Justiça. Paralelamente, o governo federal busca conduzir o assunto por meio de um projeto de lei, considerado um caminho mais rápido e de mais fácil aprovação.

Análise dos Impactos Setoriais e Heterogeneidade na Economia

As simulações do FGV-Ibre indicam que o impacto negativo no PIB ocorreria principalmente se a redução da carga horária não for acompanhada por ganhos de produtividade. Este é um ponto crucial, pois, com exceção da agricultura, os ganhos produtivos no Brasil têm se mantido praticamente estagnados nas últimas décadas. A heterogeneidade setorial é um fator importante, com perdas mais severas previstas para áreas que atualmente operam com jornadas de trabalho médias elevadas e que demandariam um maior custo de adaptação.

O setor de transporte, por exemplo, é apontado como um dos mais vulneráveis, com uma perda estimada de 14,2% no valor adicionado, devido à sua jornada média atual de 42 horas. Na indústria extrativa, o recuo chegaria a 12,6%. O comércio, um grande empregador e com uma das jornadas mais longas, de 41 horas semanais, poderia enfrentar uma queda de 12,2%. Especialistas alertam que, no comércio, a redução de horas pode afetar a remuneração de trabalhadores que dependem de comissões.

Diferenças Regionais e o Papel das Negociações Coletivas

Em contrapartida, o setor de administração pública teria um impacto menor, estimado em 1,7%, pois já opera com jornada média próxima das 36 horas semanais. Fernando de Holanda Barbosa, pesquisador do FGV-Ibre, ressalta que a medida pode ter um caráter regressivo, beneficiando mais servidores públicos e trabalhadores com emprego formal. Ele argumenta que autônomos e informais continuariam trabalhando em longas jornadas, e o mercado informal, que depende de serviços públicos, poderia ter uma oferta menor.

A última alteração significativa na carga horária de trabalho no Brasil ocorreu com a Constituição de 1988, que reduziu o teto de 48 para 44 horas semanais. Na época, a jornada média observada caiu de 42,8 para 41,8 horas entre 1988 e 1989. Atualmente, a média semanal de trabalho no país é de 38,4 horas, mas essa média varia consideravelmente entre os setores.

Perspectivas dos Sindicatos e o Cenário Internacional

Clemente Ganz Lúcio, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, considera difícil a transição direta de 44 para 36 horas. Ele sugere que um ideal inicial seria a redução para 40 horas, o que permitiria uma escala semanal de 5×2, em vez do 6×1, com oito horas diárias. A definição da duração dos turnos, segundo ele, deve levar em conta as especificidades setoriais e ser definida em negociações coletivas. No México, o Senado aprovou por unanimidade a redução da semana de trabalho legal de 48 para 40 horas.

Segundo o Ipea, o custo real para as empresas dependerá da proporção de trabalhadores em jornadas longas e do peso da folha de pagamento. Setores como vigilância e segurança e serviços para edifícios podem ter aumentos de custo mais expressivos. Para grandes empregadores como comércio e indústria de alimentos, o efeito sobre os custos operacionais seria menor, em torno de 1%, devido ao menor peso da folha de pagamento. Cerca de 13 milhões de trabalhadores estão em atividades onde o impacto direto da medida não superaria 1% do custo operacional.

Desafios para Pequenas Empresas e a Importância da Reorganização Produtiva

As empresas de menor porte enfrentariam desafios maiores. Nas firmas com até quatro funcionários, 87,7% dos trabalhadores cumprem jornadas acima de 40 horas, um percentual significativamente maior do que a média nacional. Isso indica a necessidade de reorganização de escalas e potencial aumento de custos mais agudo para pequenos negócios. Karina Negreli, assessora jurídica da FecomercioSP, destaca as especificidades do varejo, que opera frequentemente aos sábados e domingos, e alerta para o repasse de custos adicionais aos preços.

José Pastore, especialista em mercado de trabalho, prevê que muitas empresas poderão intensificar a rotatividade de funcionários. Adriana Marcolino, diretora técnica do Dieese, reforça a importância das negociações coletivas. Ela argumenta que a avaliação de impactos no PIB pelo FGV-Ibre é estática e que a contratação de mais trabalhadores pode aumentar o consumo, enquanto a reorganização das empresas e a adoção de novas tecnologias podem impulsionar a produtividade. O Brasil enfrenta um cenário de superexploração do trabalho, com a renda do trabalho subindo acima da produtividade em muitos setores.

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