Belo Horizonte: 65% das Famílias em Contas Atrasadas em 2026, Liderança Nacional em Inadimplência Choca Especialistas

Belo Horizonte lidera inadimplência no País com 65% das famílias com contas em atraso
Belo Horizonte iniciou o ano de 2026 como a capital brasileira com o maior índice de inadimplência, alcançando a alarmante marca de 65% das famílias com contas em atraso. Este dado, divulgado pela Radiografia do Endividamento 2026 da FecomercioSP, representa um aumento expressivo de 15 pontos percentuais em comparação com o final de 2023, quando metade dos lares belo-horizontinos enfrentava dificuldades financeiras.
A média nacional de famílias com dívidas vencidas no início de 2026 foi de 29%, evidenciando a gravidade da situação em Belo Horizonte, onde o problema é ainda mais disseminado. Segundo a economista da Fecomércio MG, Gabriela Martins, aproximadamente nove em cada dez famílias na capital mineira possuem algum tipo de dívida, o que as torna extremamente vulneráveis a perdas de renda ou aumentos inesperados de despesas.
O cenário desafiador é reflexo de uma combinação de fatores econômicos que se acumularam nos últimos anos. O crédito caro, o alto comprometimento da renda familiar e o uso recorrente do crédito como complemento do orçamento doméstico são apontados como os principais responsáveis por essa escalada da inadimplência. Conforme aponta a FecomercioSP, a situação em Belo Horizonte exige atenção especial devido à sua forte dependência dos setores de comércio e serviços.
Crédito Caro e Renda Pressionada: A Combinação Perigosa
A economista Gabriela Martins destaca que o avanço da inadimplência em Belo Horizonte se deve a um conjunto de fatores. “A gente tem um nível de endividamento muito elevado e disseminado por boa parte das famílias belo-horizontinas”, afirma. Ela explica que, com nove em cada dez famílias endividadas, a população fica mais exposta a atrasos em pagamentos diante de qualquer instabilidade financeira.
Stefan D’Amato, economista e conselheiro de política econômica, corrobora essa análise, associando a deterioração da capacidade de pagamento ao alto custo financeiro e à renda das famílias. Modalidades de crédito como cartão, empréstimo pessoal e crediários continuam operando com juros elevados, o que diminui significativamente a margem financeira disponível para os consumidores.
“O crédito deixou de atuar apenas como mecanismo de antecipação de consumo e passou, em muitos casos, a financiar despesas correntes, como alimentação, medicamentos e contas domésticas”, explica D’Amato. Essa mudança de paradigma, segundo ele, cria um ciclo de fragilização financeira contínua, onde a dívida se torna uma presença constante no orçamento familiar.
Impactos no Consumo e a Fragilidade Estrutural da Economia
O aumento da inadimplência em Belo Horizonte tem um impacto direto e preocupante no consumo local. Famílias com finanças mais apertadas tendem a reduzir gastos com itens não essenciais, adiar compras de maior valor e diminuir o consumo de serviços, afetando diretamente a economia da cidade, que é fortemente baseada em comércio e serviços.
A FecomercioSP aponta que, embora a renda das famílias brasileiras tenha mostrado algum equilíbrio em 2025, a expansão das dívidas acompanhou o mesmo ritmo, pressionando a capacidade de pagamento no curto prazo. Belo Horizonte concentra um alto percentual de famílias endividadas e um forte avanço nas contas em atraso, um cenário que indica um comprometimento financeiro elevado e menor resiliência a choques econômicos.
Gabriela Martins alerta para o descompasso entre o uso do crédito e a evolução da renda. “As famílias ampliaram muito o uso do crédito, mas não tiveram o mesmo avanço na renda, o que acabou transformando o endividamento em inadimplência de forma mais recorrente”, ressalta. Ela enfatiza que o endividamento em si não é o problema, mas sim a perda da capacidade de pagamento, que transforma o crédito em inadimplência.
Educação Financeira e a Necessidade de Soluções Estruturais
O levantamento da FecomercioSP sugere o fortalecimento de políticas de educação financeira para orientar os consumidores sobre o uso consciente do crédito e a organização orçamentária. Contudo, a entidade reconhece que o cenário de juros elevados, inflação persistente e alta carga tributária impõe limitações a soluções puramente estruturais.
“Mesmo uma família organizada pode ter dificuldade de honrar seus compromissos, porque o problema não é apenas o comportamento das famílias, mas também a capacidade de pagamento”, argumenta Gabriela Martins. Ela defende uma abordagem multifacetada, combinando educação financeira com a redução do custo do crédito, melhora da renda e aumento do poder de compra.
Stefan D’Amato concorda que o problema da inadimplência transcende a organização financeira individual, estando intrinsecamente ligado à fragilidade estrutural da economia brasileira. “O desafio econômico mais amplo não é apenas ensinar famílias a administrar recursos escassos. É criar condições para maior crescimento da renda, fortalecimento da estrutura produtiva e ampliação da capacidade financeira dos domicílios”, conclui.
Novo Desenrola e Limitações Persistentes
A pesquisa também aborda as mudanças no programa federal Novo Desenrola Brasil, incluindo a restrição temporária de acesso a plataformas de apostas online para participantes. Gabriela Martins vê a medida como positiva para a proteção do orçamento familiar, mas pondera que as apostas não são o principal gatilho da inadimplência em Belo Horizonte, atuando mais como um fator adicional de pressão para famílias já vulneráveis.
A FecomercioSP reconhece que o novo formato do Desenrola facilita a comunicação entre consumidores e instituições financeiras, mas ressalta que limitações estruturais relacionadas ao custo do crédito e à capacidade de pagamento da população ainda persistem. O uso do FGTS para quitar dívidas, embora traga alívio imediato, não resolve o desequilíbrio estrutural das finanças familiares.