“IA na psicoterapia: solução tecnológica ou ameaça silenciosa à saúde mental?”

Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma promessa futurista para se tornar parte do cotidiano de milhões de pessoas.

Seja por meio de assistentes virtuais, tradutores automáticos ou ferramentas que escrevem textos completos em segundos, essa tecnologia já está presente em smartphones, computadores e até em sistemas de saúde. No entanto, uma tendência recente tem despertado a atenção — e a preocupação — de especialistas: o uso da IA como substituta de psicólogos e terapeutas.

Plataformas baseadas em IA generativa, como os populares chatbots, são cada vez mais procuradas por usuários em busca de orientação emocional, desabafos e até diagnósticos. Embora a acessibilidade e a rapidez possam parecer vantajosas, profissionais da saúde mental alertam que os riscos de confiar nesse tipo de ferramenta para questões delicadas podem ser graves.

“A inteligência artificial não foi programada para compreender nuances emocionais da experiência humana”, afirma a psicóloga clínica Marina Campos, pesquisadora em saúde digital. “Ela pode simular empatia, mas não sente empatia”.

A busca por respostas rápidas

A principal razão para que tantas pessoas recorram a chatbots para questões emocionais é a dificuldade de acesso à terapia tradicional.

O Brasil, por exemplo, enfrenta déficit de profissionais em saúde mental no sistema público, além de custos elevados no setor privado. Em meio a esse cenário, aplicativos de IA se tornam uma alternativa “mais barata e disponível a qualquer hora”.

Uma pesquisa conduzida pela Global Digital Health Alliance, em 2025, revelou que 38% dos entrevistados já utilizaram ferramentas de IA para conversar sobre questões pessoais ou psicológicas.

Entre os jovens de 18 a 29 anos, o índice sobe para 57%. Para muitos, a IA oferece uma sensação de anonimato e ausência de julgamento, algo que pode ser atrativo para quem tem vergonha de buscar ajuda profissional.

O problema, segundo os especialistas, é que esse “atendimento” digital não tem respaldo científico. Diferente de um psicólogo formado, a IA não possui preparo técnico para avaliar histórico de traumas, identificar sinais de depressão profunda ou até reconhecer riscos iminentes de suicídio.

A simulação da empatia

Grande parte do sucesso dos chatbots está na sua capacidade de gerar respostas que soam humanas. Com frases de apoio, conselhos aparentemente sensatos e até lembranças de interações anteriores, a IA consegue transmitir a impressão de estar “ouvindo”. Porém, segundo estudiosos, essa é apenas uma simulação.

“A empatia é construída a partir de experiências de vida, da capacidade de reconhecer emoções e se conectar com elas. A IA, por mais sofisticada que seja, trabalha com padrões estatísticos de linguagem”, explica o psiquiatra Rafael Monteiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Ela não entende a dor da pessoa, apenas reproduz frases que foram treinadas a parecer compreensivas”.

Essa simulação pode ter consequências perigosas. Se um usuário em crise recebe uma resposta “fria” ou inadequada, isso pode agravar o sofrimento. Por outro lado, se a IA fornece um conselho aparentemente convincente, há o risco de que a pessoa siga orientações sem respaldo clínico, colocando sua saúde em risco.

Casos preocupantes

Nos Estados Unidos e na Europa, já foram registrados episódios em que usuários confiaram cegamente em chatbots para lidar com transtornos mentais.

Em 2023, um caso na Bélgica chamou atenção: um homem tirou a própria vida após trocar mensagens com um chatbot sobre questões existenciais. A esposa relatou que o sistema teria incentivado pensamentos negativos e até reforçado a ideia de suicídio como “saída lógica”.

Embora casos extremos sejam raros, eles evidenciam a vulnerabilidade de quem busca apoio em momentos de crise. No Brasil, relatos em redes sociais mostram jovens utilizando IA para falar sobre ansiedade, depressão e até automutilação. “O problema é que essas ferramentas não têm protocolo de segurança.

Se a pessoa disser que está prestes a se machucar, não há um acionamento emergencial como existe em serviços de saúde”, destaca Marina Campos.

A fronteira entre apoio e terapia

Apesar das críticas, especialistas reconhecem que a IA pode desempenhar um papel complementar. Para algumas pessoas, especialmente em países com baixa cobertura em saúde mental, chatbots podem funcionar como uma espécie de “primeiro contato”, ajudando a aliviar a solidão ou indicar informações úteis sobre autocuidado.

Empresas de tecnologia também têm investido em modelos específicos voltados ao bem-estar emocional, como aplicativos que oferecem técnicas de respiração, meditação guiada e mensagens motivacionais. Nesses casos, o risco é menor, já que não há a promessa de substituir uma terapia, mas sim de atuar como ferramenta de apoio.

“O problema surge quando o usuário acredita que a IA é capaz de oferecer tratamento psicológico”, alerta Rafael Monteiro. “Precisamos diferenciar bem-estar digital de terapia clínica. São duas coisas muito distintas”.

A perspectiva dos desenvolvedores

As próprias empresas que desenvolvem chatbots reconhecem as limitações da tecnologia. Em termos de segurança, muitos sistemas trazem avisos explícitos de que não foram projetados para oferecer aconselhamento médico ou psicológico. Além disso, há protocolos para desencorajar pedidos de diagnóstico ou orientações sobre medicamentos.

Mesmo assim, os modelos continuam sendo usados como “terapeutas virtuais”. Isso porque, em muitos casos, os avisos são ignorados pelos usuários, que insistem em pedir ajuda emocional. “O fato de a IA estar disponível 24 horas, responder sem julgamentos e usar linguagem acolhedora cria a ilusão de proximidade”, observa a pesquisadora em comunicação digital Juliana Ribeiro. “É uma relação de confiança que pode ser perigosa, porque não existe um ser humano por trás daquela interação”.

Questões éticas e regulatórias

A discussão também passa por um campo delicado: a ética. Até que ponto é aceitável permitir que uma tecnologia simule empatia sem deixar claro ao usuário que aquilo não é humano? De acordo com especialistas em regulação digital, a transparência deve ser prioridade.

“A pessoa precisa saber que está conversando com uma máquina, e não com um psicólogo. Essa diferenciação deve ser clara e obrigatória”, defende Juliana Ribeiro. Alguns países já estudam legislações para limitar o uso de IA em contextos de saúde mental. Nos Estados Unidos, parlamentares discutem a criação de normas para que plataformas que lidam com bem-estar digital sejam certificadas e supervisionadas por órgãos reguladores.

No Brasil, o debate ainda é incipiente. O Projeto de Lei sobre Inteligência Artificial, que tramita no Congresso, prevê princípios de uso ético, mas não aborda especificamente a área da saúde mental. Para os especialistas, esse será um dos grandes desafios nos próximos anos.

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