Mineração em Minas Gerais: Gigantes Mantêm Relatórios de Sustentabilidade Padrão ISSB Após Flexibilização da CVM

Mineração em Minas Gerais: Gigantes Mantêm Relatórios de Sustentabilidade Padrão ISSB Após Flexibilização da CVM
Apesar da recente flexibilização na obrigatoriedade de divulgação de relatórios de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade no padrão internacional, grande parte das companhias mineiras de capital aberto listadas na B3 planeja manter essa prática. A tendência é que empresas de setores com maior impacto ambiental continuem com a prática nos próximos anos, buscando demonstrar compromisso e atratividade para investidores.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por meio da Resolução CVM 244, alterou a Resolução CVM 193, encerrando a obrigatoriedade do uso dos padrões internacionais do International Sustainability Standards Board (ISSB), os chamados IFRS S1 e S2, para companhias abertas. A partir de 1º de janeiro de 2027, empresas que optarem por não publicar essas informações deverão apenas justificar sua decisão ao mercado, seguindo o modelo de “pratique ou explique”.
O sócio-fundador da BlendOn, Denys Roman, destaca que a principal vantagem da publicação é a reflexão sobre riscos e oportunidades ligados à sustentabilidade. Deixar de analisar os efeitos das mudanças climáticas, por exemplo, representa um risco que prejudica a tomada de decisões de médio e longo prazo. Empresas podem, assim, perder a chance de fazer investimentos de adaptação ou de mitigar riscos, resultando em decisões equivocadas.
Adoção Voluntária e Estratégia de Mercado
Eduardo Campos, sócio-fundador da Láurea Capital, observa que as empresas que já implementaram esses relatórios desde 2024, quando a publicação se tornou discricionária, desenvolveram estruturas internas robustas. Ele aponta que setores com maior sensibilidade a questões de sustentabilidade, como energia, saneamento e gestão de frota, tendem a manter a divulgação. Empresas com maior “pegada de carbono” já estão mais preparadas e incorporaram esses relatórios em sua estratégia de aproximação com investidores institucionais internacionais, que possuem exigências mais elevadas.
Campos sugere que empresas com grande base de investidores pessoa física e menor acesso a investidores internacionais podem optar pela descontinuação, possivelmente devido ao custo de implementação das práticas de sustentabilidade. Roman corrobora que os custos elevados e a necessidade de uma estrutura organizacional bem definida para gestão de riscos são fatores cruciais para essa decisão. A norma também enfatiza a importância da avaliação da cadeia de valor, incluindo fornecedores e clientes.
Incertezas e o Futuro da Divulgação
Apesar da resolução da CVM, há incertezas no mercado. Roman menciona que a Resolução 244 diverge do pronunciamento da área técnica da entidade, surpreendendo o mercado. O presidente da CVM considerou a possibilidade de rever o tema, indicando uma potencial mudança gradual. O Conselho Federal de Contabilidade também discute um cenário diferente, embora sem abordar o ponto da “asseguração” (garantia de veracidade das informações), cujo custo elevado é um fator a ser considerado.
A perda de atratividade para investidores em caso de descontinuação da divulgação é um ponto a ser ponderado. Embora muitos players nacionais demonstrem interesse em sustentabilidade, grande parte dos investidores está mais atenta a outros fatores, como a liquidez das empresas listadas. O baixo volume de empresas com liquidez no Brasil dificulta que a questão ambiental se torne um fator decisivo para a compra ou venda de ações, embora Roman aponte uma vantagem marginal para quem divulga, considerando o perfil mais “curto-prazista” da análise de investimentos.
“Pratique ou Explique”: Responsabilidade e Comparabilidade
O modelo “pratique ou explique” transfere, em parte, para a base de investidores a responsabilidade de exigir a publicação. As empresas que optarem por não divulgar terão que justificar sua decisão, correndo o risco de não apresentar o relatório. Campos vê uma deficiência nesse modelo, pois a falta de comparabilidade entre as informações dificulta a tomada de decisão e a avaliação do conteúdo, tornando a análise mais complexa.
Campos associa essa decisão da CVM ao movimento de flexibilização para atrair novas empresas para a Bolsa, através do regime Fácil (Facilitação do Acesso ao Mercado de Capitais e de Incentivos à Listagem). A obrigatoriedade de relatórios de sustentabilidade, com seus custos associados, poderia representar uma barreira de entrada adicional para potenciais participantes do mercado de capitais.
Posicionamento das Empresas Mineiras
Empresas como Azzas 2154 (dona da Arezzo) e Usiminas pretendem manter a publicação de seus relatórios de sustentabilidade. O Banco Mercantil reafirma seu compromisso com a transparência e a evolução contínua de suas práticas, buscando fortalecer a relação de confiança com seus públicos e a construção de um negócio sólido. Desde 2021, a instituição publica seu relatório para dar transparência a avanços, desafios e iniciativas.
A farmacêutica Biomm também planeja manter seu compromisso com elevados padrões de governança e transparência, independentemente da obrigatoriedade. A empresa avalia continuamente seus processos e a forma mais adequada de comunicar informações relevantes, alinhando-se à sua estratégia corporativa e às expectativas do mercado. A migração para o Nível 2 de Governança Corporativa da B3 reforça esse compromisso com o crescimento de longo prazo.
A Direcional Engenharia está preparada para publicar seu próximo relatório anual de sustentabilidade e está definindo o formato e a abrangência para os próximos anos, prezando sempre pela transparência. Cemig e Copasa ainda estão avaliando suas opções, considerando suas diretrizes estratégicas e as melhores práticas de mercado. A Copasa, em particular, já divulga informações de sustentabilidade em diversos documentos públicos, incluindo o Relatório de Sustentabilidade e alinhamentos com padrões como o CDP.
Log Commercial Properties e Localiza&Co também estão em processo de análise. O CFO da rede de hospitais Mater Dei, Rafael Cordeiro, esclarece que a companhia não pretende adotar a divulgação antecipada sem a obrigatoriedade regulatória. O cenário demonstra um panorama de decisões estratégicas diversas entre as empresas mineiras, refletindo as novas diretrizes da CVM e a busca por um equilíbrio entre conformidade, transparência e atratividade para o mercado.