Americanas: Em meio à investigação da PF, varejista aposta em transformação e busca provar que “já é outra empresa”

Americanas: Em meio à investigação da PF, varejista aposta em transformação e busca provar que “já é outra empresa”
A varejista Americanas está em um momento crucial, tentando se reerguer financeiramente e operacionalmente enquanto a Polícia Federal avança nas investigações sobre a fraude contábil que abalou a empresa. A companhia busca convencer o mercado de que a transformação implementada já está gerando resultados positivos, distanciando-se da crise.
O foco atual da gestão está em uma operação mais enxuta, simples e focada na geração de caixa, eficiência e rentabilidade. O Ebitda ajustado já retornou ao campo positivo, e o prejuízo líquido de operações continuadas apresentou uma redução significativa no primeiro trimestre do ano.
A Americanas protocolou em março o pedido de encerramento da recuperação judicial e agora concentra seus esforços em demonstrar que a reconstrução do negócio está em curso. A estratégia envolve desde o encolhimento da rede de lojas até a venda de ativos e uma mudança profunda no modelo de negócios, priorizando a integração entre o digital e o físico.
Reestruturação e Venda de Ativos
Desde o início da recuperação judicial, a Americanas fechou mais de 400 lojas, reduzindo sua rede para aproximadamente 1.448 unidades. Essa estratégia visa concentrar recursos em ativos considerados estratégicos e abandonar negócios com baixa rentabilidade. A venda de imóveis, com valor estimado entre R$ 346 milhões e R$ 468 milhões, também faz parte desse plano de reestruturação.
Em fevereiro, credores aprovaram a alienação de diversos imóveis. Conforme acordado, 60% do valor líquido excedente a R$ 200 milhões será destinado à amortização ou resgate antecipado de debêntures. Em maio, a venda de 10 lojas deficitárias da rede Hortifruti Natural da Terra em São Paulo para o Oba Hortifruti, por R$ 69,3 milhões, foi anunciada. O diretor financeiro (CFO), Sebastien Durchon, afirmou que essa transação deve eliminar a queima de caixa da operação paulista da rede.
Durchon também destacou que, se as vendas da Uni.Co e das lojas do Natural da Terra já estivessem refletidas no balanço de março, a dívida líquida da Americanas seria 29% menor, caindo para R$ 535 milhões. Os desinvestimentos refletem a tentativa da companhia de operar com uma estrutura menos intensiva em capital.
O Novo Modelo de Negócios: O2O no Centro
A reconstrução da Americanas também passa por uma mudança significativa em seu modelo de negócios. A empresa abandonou a estratégia de expansão massiva do marketplace e a busca por um grande número de vendedores. Atualmente, o digital é visto como uma extensão da operação física, com foco no modelo O2O (online to offline).
O presidente da companhia, Fernando Soares, explicou que o marketplace continuará operando, mas será concentrado em poucos e grandes vendedores, com estrutura logística própria e alto nível de atendimento ao consumidor. “Não é a nossa estratégia ter 200 mil, 300 mil sellers como outros fazem”, declarou Soares em entrevista ao Broadcast.
A prioridade agora é o modelo O2O, que conecta vendas digitais às lojas físicas por meio de retirada em loja e entregas realizadas a partir das próprias unidades. Segundo Soares, a margem dessa operação é cerca de três vezes superior à do marketplace tradicional, justificando a concentração de investimentos nesse formato. A loja física voltou a ser o centro da estratégia, funcionando também como base logística.
Primeiros Sinais de Recuperação Operacional
A nova estratégia já começa a apresentar resultados nos indicadores financeiros, embora a reconstrução da Americanas ainda esteja em andamento. No primeiro trimestre, a receita líquida cresceu 20,2%, totalizando R$ 3,1 bilhões, e o lucro bruto avançou 16,6%, alcançando R$ 834 milhões. O Ebitda ajustado voltou ao terreno positivo, somando R$ 15 milhões, revertendo o resultado negativo de R$ 26 milhões do mesmo período do ano anterior.
O controle de custos também demonstrou efeitos. As despesas com vendas, gerais e administrativas, apesar de um aumento de 3,9% para R$ 851 milhões, passaram a consumir uma parcela menor da receita líquida, caindo de 31,9% para 27,6%, evidenciando ganhos de eficiência operacional. Para mitigar distorções de calendário, como a Páscoa, a Americanas divulgou o indicador de vendas mesmas lojas dos quatro primeiros meses do ano, com crescimento de 7,8% na comparação anual.
Apesar da melhora operacional, a companhia ainda registra prejuízo líquido. No primeiro trimestre, o prejuízo líquido nas operações continuadas foi de R$ 336 milhões, uma redução de 24,8% em relação à perda de R$ 447 milhões registrada no mesmo período do ano anterior. Soares atribui esse desempenho ao avanço da integração entre lojas físicas e digitais, à melhoria na relação com fornecedores, à expansão do programa de fidelidade Cliente A e ao fortalecimento da área de serviços financeiros, com o cartão da empresa movimentando mais de R$ 1 bilhão em transações em menos de um ano.
Desafios Simultâneos: Investigação e Reconstrução
A Americanas enfrenta o desafio de gerir duas frentes simultaneamente. Por um lado, a empresa colabora com as investigações da Polícia Federal sobre a fraude contábil, que levou à recuperação judicial. Por outro, busca convencer o mercado de que a nova Americanas, emergente desse processo, já é uma companhia diferente daquela que entrou nele.
A segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada em 25 de maio, reacendeu os holofotes sobre o passado da empresa. A varejista informou que não foi alvo dos mandados de busca e apreensão e reiterou seu compromisso em colaborar com as investigações, afirmando ser “a maior interessada no esclarecimento dos fatos”. O futuro da Americanas dependerá da sua capacidade de superar os desdobramentos do passado, ao mesmo tempo em que consolida sua transformação operacional e financeira.